terça-feira, 9 de junho de 2026

Festival Dia Mundial do Rock chega à 7ª edição e consolida tradição da cena underground de Parauapebas

 Nascido da vontade de jovens músicos criarem seus próprios espaços, evento se tornou símbolo de resistência, música autoral e união dentro da cultura rock local.

Por Barbie Dantas | Rorairock

Existem festivais que acontecem. E existem festivais que sobrevivem.

Em uma época em que muitos eventos independentes surgem e desaparecem rapidamente, o Festival Dia Mundial do Rock de Parauapebas chega à sua 7ª edição carregando algo que não se constrói da noite para o dia: história.

Mais do que uma celebração do rock, o festival representa anos de dedicação de músicos, produtores culturais e apaixonados pela cena underground que decidiram não esperar oportunidades aparecerem. Resolveram criar as próprias.

Segundo Jackson, um dos responsáveis pela construção dessa trajetória, tudo começou entre 2015 e 2016, quando uma nova geração de bandas começou a surgir na cidade.

"Naquele período apareceram várias bandas em Parauapebas e, naturalmente, surgiu também a vontade dessas bandas de tocar. Existiam algumas pessoas ligadas à cultura do rock na cidade, mas algumas não estavam tão conectadas com a cena underground e outras já estavam inativas. Hoje, olhando para trás, percebo que era um momento de transição, tanto das bandas quanto do próprio público."

A movimentação começou de forma espontânea. Pequenos eventos passaram a ser organizados em espaços alternativos, reunindo artistas e público que buscavam um ambiente voltado para o rock e suas diferentes vertentes.

"Eu me lembro que a galera começou a organizar eventos com amigos da cena na Casa Krio. Depois outras pessoas se juntaram e criaram o Oficina Rock, que acontecia com frequência e tinha uma pegada bem underground. Com o tempo fomos nos organizando melhor e passamos a ocupar espaços maiores como a Concha Acústica, o CDC e outros pontos da cidade."

Durante aqueles primeiros anos, vários eventos foram realizados em diferentes datas. Entre eles, sempre existia uma celebração voltada ao Dia Mundial do Rock.

A diferença é que ela ainda não possuía uma identidade definitiva.

"Todo ano fazíamos um evento em homenagem ao Dia Mundial do Rock, mas cada edição tinha um nome diferente. Depois da terceira edição decidimos manter o mesmo conceito e o mesmo nome. Hoje, olhando depois de tantos anos, percebemos que esse foi o único evento que permaneceu e acabou virando tradição."

Fazer a própria diversão

Ao falar sobre o que mais o orgulha nessa caminhada, Jackson não cita números, estruturas ou grandes produções.

A resposta está justamente na origem do festival.

"O que mais me orgulha foi a atitude que tivemos há quase dez anos. A gente ainda estava saindo da adolescência e decidiu criar nossa própria diversão. Naquele momento queríamos apenas nos divertir e acredito que foi justamente isso que fez tudo funcionar até hoje."

Talvez seja exatamente essa autenticidade que tenha mantido o evento vivo ao longo dos anos.

O maior desafio é manter a cena unida

Construir um festival independente nunca é simples. Mantê-lo ativo durante anos é ainda mais difícil.

Para Jackson, o principal desafio sempre esteve nas relações humanas que sustentam a cena.

"Sozinho você não faz nada. Tudo acontece através da cooperação entre músicos, apoiadores e público. Às vezes diferentes visões ou mal-entendidos acabam enfraquecendo uma estrutura que levou muito tempo para ser construída."

Outro ponto que ele considera fundamental é a renovação constante da cena.

"O tempo passa, muita gente vai embora, muda de cidade ou passa a se dedicar a outras coisas. Quando chegam pessoas novas, elas trazem energia, novas ideias e um novo gás. Isso é muito importante para qualquer movimento cultural."

Dois palcos e uma experiência mais plural

A nova edição traz uma novidade que simboliza o crescimento do festival: dois palcos funcionando dentro da programação.

A proposta nasceu da vontade de ampliar as experiências oferecidas ao público sem perder a essência alternativa que acompanha o evento desde sua criação.

"O festival sempre teve a intenção de ser plural dentro do rock. Ao longo dos anos tivemos campeonato de skate, BMX com o pessoal da UERCAP, flash tattoo e outras atividades. A ideia dos dois palcos surgiu a partir de debates entre integrantes da organização e pessoas ligadas à cena local. Eu também tinha vontade de criar um palco mais próximo do público, como se fosse um bar."

A iniciativa busca aproximar ainda mais artistas e espectadores, criando diferentes ambientes dentro do mesmo evento.

Banda cover não cria cena

Se existe um dos pilares históricos do Festival Dia Mundial do Rock, ele certamente é a valorização da música autoral.

Desde seus primeiros anos, o evento abriu espaço para bandas que apostaram em composições próprias quando o caminho mais fácil seria seguir apenas reproduzindo clássicos conhecidos pelo público.

Bandas como Sem Nome, DPA e Rise Above ajudaram a consolidar essa cultura dentro da nova geração da cena local.

"Essas bandas foram fundamentais para popularizar a ideia da música autoral. Muitas pessoas querem chegar ao evento e ouvir músicas de bandas famosas que gostam. Isso é normal. Mas existe uma maturidade dentro da cena para valorizar também aquilo que está sendo criado pelos artistas locais."

Jackson também faz questão de lembrar os grupos que vieram antes e abriram caminho para quem chegou depois.

"Parauapebas" já teve bandas importantes como Anarkia, AntiCorpus e Fragor, que trabalhavam exclusivamente com músicas autorais. Acho importante destacar essas bandas porque elas resistiram muito para conquistar seu espaço."

Ao falar sobre o tema, ele resume sua visão em uma frase que se tornou quase um manifesto dentro do underground.

"Um amigo meu de Marabá me disse uma vez uma coisa que nunca esqueci: banda cover não cria cena. Quem cria a cena é a banda autoral."

Curadoria feita por quem vive o rock

A programação deste ano reúne nove bandas selecionadas a partir de critérios que vão muito além da popularidade. A proposta da organização foi construir um line-up capaz de representar diferentes vertentes do rock e mostrar a diversidade existente atualmente na cena de Parauapebas e da região.

Segundo Jackson, a curadoria buscou equilibrar experiência, autenticidade e movimentação dentro da cena independente.

"Eu me vejo também como parte do público. Procuro artistas que estão produzindo, lançando material e se movimentando. Também buscamos representar diferentes sub gêneros, como punk, metal e nu metal, para construir um line-up realmente plural."

As bandas confirmadas para esta 7ª edição são:

  • Cogumelo Atômico

  • Seiva Duo

  • OJ Hendrix

  • The Chess

  • Amarelo Creme

  • Céus de Abril

  • Vagabundos do Fundão

  • Cérebro de Galinha

  • Broken & Boned

A diversidade de sonoridades presentes no festival reforça uma das características que acompanham o evento desde suas primeiras edições: abrir espaço para diferentes formas de expressão dentro do universo do rock, valorizando tanto artistas já conhecidos pelo público quanto novos projetos que vêm fortalecendo a cena independente.

Nesta edição, a curadoria foi realizada por Jackson em conjunto com outros colaboradores do festival, sempre com o objetivo de oferecer ao público uma experiência plural, autêntica e conectada ao espírito do rock underground.

Rock em Movimento: uma força que ajudou a manter o festival vivo

Ao longo dos anos, o coletivo Rock em Movimento desempenhou um papel fundamental para a manutenção da cena e do próprio festival.

"O coletivo foi um elo importante que uniu várias pessoas em torno da cena rock de Parauapebas. Não apenas do Festival Dia Mundial do Rock, mas de várias iniciativas culturais ao longo dos anos."

Para Jackson, a permanência do festival está diretamente ligada ao trabalho coletivo desenvolvido por seus integrantes.

"Esse festival sobreviveu graças à persistência e à colaboração das pessoas que fizeram parte desse movimento. Sem essa contribuição dificilmente teríamos chegado até aqui."

Muito além da música

Além dos shows, o festival também aposta em experiências que ampliam a participação do público.

A programação inclui gastronomia, cerveja artesanal, atividades culturais e arrecadação de alimentos.

"A ideia é somar forças, reunir os amigos e talvez atrair pessoas que ainda não fazem parte do universo do rock. Tudo isso ajuda a construir uma festa mais completa."

Uma cena que continua em movimento

Ao avaliar a evolução do rock em Parauapebas desde as primeiras edições do festival, Jackson prefere uma visão equilibrada.

"A cena tem altos e baixos. O importante é não se iludir nos momentos de glória e também não desistir nos momentos difíceis. Hoje já temos uma trajetória relevante na região e uma experiência considerável dentro do cenário cultural, mas ainda temos muito caminho pela frente."

Enquanto esse caminho continua sendo construído, o Festival Dia Mundial do Rock segue como um dos principais pontos de encontro da cultura alternativa local.

E para quem acompanha essa história desde o início, fica o agradecimento.

"Obrigado por confiar na gente durante todos esses anos. Estamos nos esforçando para fazer uma grande celebração do rock para todo mundo."

Já para quem pretende viver essa experiência pela primeira vez, o convite é direto.

"Pode vir sem receio. Os roqueiros são tudo gente boa, a cerveja vai estar gelada e as bandas estão preparadas para fazer uma noite inesquecível. E tem uma coisa importante: em todos esses anos de festival nunca tivemos brigas ou acidentes."

Porque, no fim das contas, o Festival Dia Mundial do Rock de Parauapebas sempre foi mais do que um evento.

É o retrato de uma cena que decidiu existir por conta própria.

E continua fazendo barulho.








Em Parauapebas, o rock nunca foi apenas um gênero musical. Tornou-se um movimento construído por quem se recusou a esperar oportunidades. Sete edições depois, o festival segue fazendo o que sempre fez de melhor: transformar resistência em música e paixão em história.

 
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